
Me contaram que não faz muito tempo, num lugar que não é muito longe daqui, homens e mulheres não podiam se sentar na igreja juntos. A igreja tinha bancos separados e distantes para cada sexo. Todos achavam isso normal, afinal se tratava da casa de Deus, um lugar feito para rezar e mais nada.Um pouco antes disso, mas não muito, quem não era marido e mulher não podia demonstrar nenhuma forma de afeto em público.
Sair sozinha de noite com algum homem, andar de mãos dadas nas ruas, eram considerados atos imorais que acabavam com a reputação de qualquer moça de família. Afinal, só uma depravada, pervertida e sem-vergonha faria uma coisa dessas!
Beijo na boca então, por muito tempo foi algo que só era permitido dentro de quatro paredes, com as luzes apagadas, na noite de núpcias. Claro que isso não quer dizer que não haviam muitos espertinhos que davam um jeito de beijarem escondidos dos olhos alheios. Mas foi um escândalo quando em 1895 o diretor John Rice decidiu fazer o primeiro filme que mostrava um beijo na boca. O filme foi repudiado, pais ficaram indignados.Cinema era um programa para todas as idades, um programa para se fazer em família e um beijo na tela corromperia suas filhinhas.
Como eles poderiam explicar tal ato para aquelas meninas inocentes? E se elas começassem a sair por aí beijando qualquer marmanjo que enxergassem?110 anos depois não há nada mais natural do que beijos. Várias gerações cresceram vendo beijos nas telas do cinema, na TV, nas ruas, em casa, em festas.... O que antes era considerado vergonhoso, hoje é uma mostra sutil de afeto. Algo tão normal como ver mulheres e homens compartilhando não só bancos de igrejas, mas também postos de trabalho e filas de supermercados.
Mas afinal, o que é normal? É uma condição estável ou é algo mutável? O dicionário diz que é tudo aquilo que não foge às regras. Mas as regras são sempre as mesmas ou vão se modificando com o tempo? O beijo na boca não era, mas foi aceito nas nossas normas silenciosas e inconscientes como algo normal. Mas quando essa demonstração de carinho se dá por pessoas que não são do sexo oposto, o caso é bem diferente.
A situação da foto acima nos causa estranheza, repúdio, irritação e até nojo. Ver uma situação dessas no nosso dia a dia, para muitos, é algo traumático (daquele tipo de coisa que causa até pesadelo). Na mesma conversa onde me contaram do caso dos bancos da igreja, surgiu o tema da homossexualidade e se repetiu a mesma preocupação com a amoralidade da anormalidade lá de fins do século XIX: “O que eu vou dizer pro meu filho se entrar num lugar e encontrar dois caras se beijando?
Isso pode influenciar às crianças a querer fazer igual”. É...Assim como crianças que vêm pessoas fumando, bêbadas ou qualquer noticiário de TV, podem ser influenciadas a fumar, beber ou sair por aí matando gente. Mas enfim, homens e mulheres sentados juntos nos bancos das igrejas, era anormal e imoral no passado. Hoje é algo normal. Beijos na boca em público, eram proibidos, hoje causam suspiros. Por outro lado, hoje homem beijando homem ou mulher beijando mulher, está longe de ser algo comum.
Quem sabe, amanhã deixe de ser. Quem sabe amanhã haverá algo bem mais absurdo ameaçando nossa normalidade. O que nunca deixará de ser normal é o medo humano a tudo que não é normal.
Concordam?
Leandro Milú


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