sexta-feira, 30 de maio de 2008

Pensei, simplesmente pensei.


Pensei que era o super-homem, que os fracos eram os outros. Bastava eu dizer "não quero mais" e não quereria mais. Bastava eu perguntar "quem sou eu?" e saberia logo. Mas eu não sou o super-homem porque super-homens não existem. Existem homens como eu que são atraídos para vícios estúpidos. Existem homens como eu que cometem erros e que deles dificilmente se livram.Pensei simplesmente pensei!
Leandro Milú

Com um piscar de olhos


Com um piscar de olhos,
Eu posso ver o sol, o céu, a água, você!
Com um piscar de olhos,
Eu posso ver tudo como posso não ver nada.
Com um piscar de olhos,
Eu posso me lembrar de ótimos momentos.
Mas com um piscar de olhos,
Eu posso esquecer de todos eles.
Com um piscar de olhos,
Eu posso viajar nos mais profundos pensamentos.
Com um piscar de olhos,
Eu posso despertar do sono mais profundo.
Com um piscar de olhos,
Eu posso te ter ao meu lado.
Com um piscar de olhos,
Eu posso te perder eternamente.
Com um piscar de olhos,
Eu posso ver o que ninguém vê.
Com um piscar de olhos,
Eu posso nunca mais acordar.
Com um piscar de olhos,
Eu posso estar aqui.
Com um piscar de olhos,
Com outro piscar de olhos,
Com um simples piscar de olhos,
Eu posso nunca mais abri-los.
Leandro Milú

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Resumo

Hoje sinto-me capaz de te escrever, matando assim a inércia que me prendia os dedos. Hoje sinto-me capaz de dizer que continuo a querer seguir o meu caminho de mãos dadas contigo, mesmo que às vezes o meu caminho se vista de dúvidas. Hoje sinto-me capaz de repetir vezes sem conta que te amo, que te quero e espero envelhecer ao teu lado.

Hoje sinto-me capaz de te pedir desculpa por às vezes não ser tão compreensivo quanto precisas e capaz ainda de te desculpar por às vezes seres mais egoísta do que aquilo que mereço. Hoje sinto-me capaz de concordar que temos momentos dificeis, porque nós os tornamos assim, mas também sou capaz de admitir que os bons momentos são bem mais fortes e capazes de apagar qualquer resto de mágoa.

Hoje sou capaz de afirmar que, passados estes 19 meses, vivemos uma das nossas melhores fases, e capaz de implorar a qualquer deus maior para que nunca te leve
para longe de mim. Hoje sou capaz de admitir que tenho medo de muita coisa mas que ao teu lado me sinto capaz de ir mais além.

Hoje sou capaz de te exigir beijos sem fim ou então um daqueles abraços só teus onde me perco, onde o tempo deixa de existir e todo o mundo se resume a nós.

E por falar em resumo, hoje sou capaz de resumir todo este texto na banal mas sentida palavra Amo-te.

Que assim seja!

Ponto final.

Parágrafo.

Amo-te!

Leandro Milú

Borboletas na barriga

Gostava que as coisas simples nos invadissem e que somente elas nos fizessem mover. Algo tão simples como falar apenas com uma troca de olhares. Sentir o coração bater com um abraço. O transpirar de mãos dadas. O sal da pele. O cheiro.

Gostava que te deixasses invadir pelas coisas simples e que só elas te fizessem querer-me. Querer a lua deitados na praia. Ouvir o mar de olhos fechados. Sentir o frio da areia nos pés. Sentir o escuro da noite. Sentires-me.

Gostava de me invadir em ti com coisas simples e que só elas me fizessem tocar-te. Eu, tu, um filme e uma fatia de bolo de chocolate. Um abraço apenas. Borboletas na barriga.


Leandro Milú

Identidade X Diversidade

Não é mais o orgulho de "ser". O significado do orgulho gay está além da identidade sexual e encontrou na diversidade sua definição máxima. O "ser gay" hoje assumiu todos os significados da palavra diferente e todos os significados da palavra conteúdo. Essa última, porquê as pessoas de orientação sexual diferente sairam dos guetos, quebraram as barreiras e a nova geração conquistou o seu lugar graças ao fim do perfil de homossexual afetado, vazio e fútil.Era e ainda é esse perfil marginalizado que será sempre o presuposto para o preconceito, a discriminação, as agressões. A imagem de gay hoje no Brasil ainda carrega preconceitos e abala tradições, mas já tem uma nova roupagem.
É o perfil de um segmento que agora significa consumidores com alto poder aquisitivo, público com elevada formação escolar, exigente, sensível, criativo e, o que é melhor, com alto poder aquisitivo.Aquilo que já é, há muitos anos, uma realidade em países como os Estados Unidos e outros da Europa, começa a explodir aqui no Brasil. São coisas simples como uma empresa investir numa parada gay ou famílias inteiras participando de um evento cujos donos são pessoas de orientação sexual diferente. São coisas como o direito a pensão por morte de companheiro para casais do mesmo sexo ou plano de saúde com o parceiro(a) como dependente. O segmento GLS agora significa cidadania, mercado, audiência (Big Brother e novelas), talento, poder.
O homossexual deprimido, promíscuo e que não aceita a sua sexualidade está mofando dentro de um armário que, hoje, pede para que ele saia e busque o seu lugar. A nova geração não precisa mais sair pela rua dizendo que é diferente para chamar a atenção ou fazer sexo com alguém. Essa nova geração tem luz e talento próprios para conquistar o que quer em qualquer plano, sentimental ou material. Essa nova geração é que supera o preconceito porquê não dá motivos para que ele exista. É dessa forma que a diferença e a sociedade podem caminhar lado a lado usufruindo do mesmo mundo, do mesmo país, da mesma cidade e sem medo de ser feliz.

O pardal



Leva um pouco de nuvem sobre as asas,
com as papoilas ri-se dos espanta-pássaros
e engorda sem suspeitar do visgo
da armadilha, do chumbo.
Irmão de S. Francisco como os outros
baloiça-se nos trigos, nos arames e,
de manhã, penteia-se nos espelhos da chuva.




Leandro Milú

terça-feira, 27 de maio de 2008

Um papo sobre o normal



Me contaram que não faz muito tempo, num lugar que não é muito longe daqui, homens e mulheres não podiam se sentar na igreja juntos. A igreja tinha bancos separados e distantes para cada sexo. Todos achavam isso normal, afinal se tratava da casa de Deus, um lugar feito para rezar e mais nada.Um pouco antes disso, mas não muito, quem não era marido e mulher não podia demonstrar nenhuma forma de afeto em público.


Sair sozinha de noite com algum homem, andar de mãos dadas nas ruas, eram considerados atos imorais que acabavam com a reputação de qualquer moça de família. Afinal, só uma depravada, pervertida e sem-vergonha faria uma coisa dessas!

Beijo na boca então, por muito tempo foi algo que só era permitido dentro de quatro paredes, com as luzes apagadas, na noite de núpcias. Claro que isso não quer dizer que não haviam muitos espertinhos que davam um jeito de beijarem escondidos dos olhos alheios. Mas foi um escândalo quando em 1895 o diretor John Rice decidiu fazer o primeiro filme que mostrava um beijo na boca. O filme foi repudiado, pais ficaram indignados.Cinema era um programa para todas as idades, um programa para se fazer em família e um beijo na tela corromperia suas filhinhas.
Como eles poderiam explicar tal ato para aquelas meninas inocentes? E se elas começassem a sair por aí beijando qualquer marmanjo que enxergassem?110 anos depois não há nada mais natural do que beijos. Várias gerações cresceram vendo beijos nas telas do cinema, na TV, nas ruas, em casa, em festas.... O que antes era considerado vergonhoso, hoje é uma mostra sutil de afeto. Algo tão normal como ver mulheres e homens compartilhando não só bancos de igrejas, mas também postos de trabalho e filas de supermercados.
Mas afinal, o que é normal? É uma condição estável ou é algo mutável? O dicionário diz que é tudo aquilo que não foge às regras. Mas as regras são sempre as mesmas ou vão se modificando com o tempo? O beijo na boca não era, mas foi aceito nas nossas normas silenciosas e inconscientes como algo normal. Mas quando essa demonstração de carinho se dá por pessoas que não são do sexo oposto, o caso é bem diferente.
A situação da foto acima nos causa estranheza, repúdio, irritação e até nojo. Ver uma situação dessas no nosso dia a dia, para muitos, é algo traumático (daquele tipo de coisa que causa até pesadelo). Na mesma conversa onde me contaram do caso dos bancos da igreja, surgiu o tema da homossexualidade e se repetiu a mesma preocupação com a amoralidade da anormalidade lá de fins do século XIX: “O que eu vou dizer pro meu filho se entrar num lugar e encontrar dois caras se beijando?
Isso pode influenciar às crianças a querer fazer igual”. É...Assim como crianças que vêm pessoas fumando, bêbadas ou qualquer noticiário de TV, podem ser influenciadas a fumar, beber ou sair por aí matando gente. Mas enfim, homens e mulheres sentados juntos nos bancos das igrejas, era anormal e imoral no passado. Hoje é algo normal. Beijos na boca em público, eram proibidos, hoje causam suspiros. Por outro lado, hoje homem beijando homem ou mulher beijando mulher, está longe de ser algo comum.
Quem sabe, amanhã deixe de ser. Quem sabe amanhã haverá algo bem mais absurdo ameaçando nossa normalidade. O que nunca deixará de ser normal é o medo humano a tudo que não é normal.
Concordam?



Leandro Milú